A Psicologia como um Evolucionista a Vê
Steven Pinker, Como a Mente Funciona. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
Steven Pinker começa Como a Mente Funciona com duas notas de humildade (na verdade há uma terceira, no fim do livro, como veremos). Também quero começar com uma. As dele são estas: primeiro, que realmente ninguém entende, de verdade, como a mente funciona; o livro inteiro pode não passar de uma peça de ficção. Em segundo lugar, Pinker ressalta que poucas propostas explicativas do livro são dele. Como a Mente Funciona é principalmente o resultado do esforço de se reunir as muitas idéias que ele contém, tiradas de uma lista enorme de fontes, como atestam as 28 páginas da bibliografia. A minha nota de humildade é que Como a Mente Funciona foi o livro que mudou os rumos dos meus estudos em psicologia, ou melhor, foi o livro que me mostrou que a psicologia tinha um rumo.
Quando iniciei o curso de graduação eu tinha certeza de que seria um clínico. Meus livros de cabeceira eram A Análise do Caráter, de Wilheim Reich (sim, eu já acreditei), e o óbvio A Interpretação dos Sonhos, de Freud. Minha esperança era de que o curso me ajudasse a aprofundar o entendimento dos conceitos da psicanálise, proporcionando-me os meios para que eu formasse algum tipo de modelo geral de como a psique humana é estruturada e de como ela funciona. À medida que meus estudos iam avançando, foi ficando cada vez mais claro que o modelo hidráulico oferecido por Freud não seria satisfatório. Também foi me incomodando cada vez mais toda aquela intricada trama conceitual, tão característica dos textos psicanalíticos, até que, eventualmente, eu desisti da psicanálise, Reich e suas couraças e orgones incluídos.
A alternativa que a faculdade me oferecia era o behaviorismo radical, da qual declinei. Não que eu discordasse das proposições behavioristas, como a importância do reforçamento ou o valor da lei do efeito para a aprendizagem. Isso seria estupidez. Apenas não pensava – e não penso – que o behaviorismo, em qualquer de suas formas, seja uma resposta aceitável a perguntas cruciais da psicologia, como “o que é emoção”, “como a memória funciona”, ou “o que são os sonhos”. Na verdade, os behavioristas não conseguem – e o que é pior, nem tentam – responder a nenhuma questão que se afaste muito de “o que é a aprendizagem”. Para colocar as coisas de um jeito que os behavioristas gostam, apenas não achei que Skinner fosse muito reforçador.
Foi então que, lá pelo meio do curso, topei por acaso com o livro de Steven Pinker. Foi uma revelação. Ali estavam os assuntos que eu, ingenuamente, imaginei iria estudar na faculdade, expectativa que meus professores – sorriso condescendente nos lábios – logo trataram de me tirar da cabeça. A psicologia, como apresentada no curso, ou era um conjunto de conceitos metafísicos tais como “pulsão”, “complexo” e “ego”, ou uma série de procedimentos laboratorais, cheios de escalas e intervalos. E ratos, muitos ratos. De repente alguém me mostrava que minha visão leiga e ingênua, da psicologia como uma ciência grandiosa, quase mágica, com o ser humano no centro de suas atenções, não só era possível, como efetivamente existia.
Isso foi há 6 anos. Desde então, essa é a terceira vez que leio o livro, o que me coloca numa posição privilegiada para comentá-lo, embora não necessariamente cômoda. Embora o próprio autor diga que “Este livro destina-se a qualquer pessoa que tenha curiosidade de saber como a mente funciona”, incluindo “professores e estudantes … estudiosos e leitores em geral” (p. 10), fiz a primeira leitura descompromissadamente, como cabe a um “leitor em geral”, enquanto essa última – espero – foi feita com a visão de um “estudioso” do assunto. Essa duplicidade de pontos de vista pode gerar uma certa ambigüidade de julgamentos, ainda mais quando um deles é composto de boa dose de memória emocional.
Para acabar de vez com a possibilidade da ambigüidade, vou fazer duas resenhas – a primeira será a do curioso leigo, a segunda, do aluno de doutorado. Aí vai a primeira: “Como a Mente Funciona é espetacular! Compre-o e leia-o hoje mesmo! Steven Pinker é um gênio”. A segunda é a que se segue.
Dois temas principais são o fio da história contada por Pinker: computacionalismo e psicologia evolutiva:
“A mente é um sistema de órgãos de computação, projetados pela seleção natural para resolver os tipos de problemas que nossos ancestrais enfrentavam em sua vida de coletores de alimentos, em especial entender e superar em estratégia os objetos, animais, plantas e outras pessoas”.
Pinker advoga uma forte versão da teoria computacional da mente: o que “O cérebro faz, o que nos faz ver, pensar, sentir, escolher e agir é o processamento da informação, ou computação” (p. 36). Então, a mente é uma espécie de processamento da informação, equacionada pela computação. De acordo com o autor, isso resolve, pelo menos em parte, o famoso problema mente-corpo, i.e., como um mundo etéreo pode se conectar e influenciar um mundo físico. A solução é que um computador é qualquer mecanismo capaz de processar símbolos e o que faz da mente um computador é que
Crenças e desejos são informações, encarnadas como configurações de símbolos. Os símbolos são os estados físicos de bits de matéria, como os chips de um computador ou os neurônios no cérebro. Eles simbolizam coisas do mundo porque são desencadeados por essas coisas via órgãos dos sentidos e devido ao que fazem depois de ser desencadeados. Se os bits de matéria que constituem um símbolo são ajustados para topar com os bits de matéria que constituem outros símbolo exatamente do jeito certo, os símbolos correspondentes a uma crença podem originar novos símbolos correspondentes a outra crença relacionada logicamente com a primeira, o que pode originar símbolos correspondentes a outras crenças, e assim por diante. (…) A teoria computacional da mente, portanto, permite-nos manter crenças e desejos em nossas explicações do comportamento enquanto os situamos diretamente no universo físico. Ela permite que o significado seja causa e seja causado”. (p. 35-36).
É importante notar que, embora o autor defenda a teoria computacional da mente, não se deve confundi-la com a “metáfora do computador”, i.e., cérebros não são PCs. O que a teoria computacional da mente propõe é que cérebros e computadores são sistemas inteligentes pelas mesmas razões, mas é um erro pensá-los como a mesma coisa, ainda que metaforicamente. Para afastar a tentadora metáfora do computador, Pinker dá o exemplo de pássaros e aviões: ambos podem voar, pelas mesmas razões físicas, mas ninguém pensaria que os dois são a mesma coisa, afinal pássaros não têm “serviço de bordo” (p. 38) nem aeromoças sorridentes.
Depois da cuidadosa discussão feita nos primeiros dois capítulos, a teoria computacional desaparece do livro, e muito pouco é dito sobre as implicações computacionais da análise evolucionista que se segue. A impressão que temos é que o autor considera que o trabalho está feito, que está claramente demonstrado que a mente é um computador, e que não existe muita discussão a este respeito. Foi este ponto, principalmente, que levou Jerry Fodor a escrever uma ácida resenha sobre Como a Mente Funciona, que mais tarde se tornaria ela mesma um livro, The Mind doesn’t Work that Way. Pinker, por sua vez, escreveu uma réplica: Who Said it Does?.
Mas o argumento central do livro é mesmo que a mente é um órgão – ou conjunto de órgãos – naturalmente evoluído por meio da seleção natural, e Pinker faz um trabalho brilhante esclarecendo a teoria evolucionista. As críticas que podem ser feitas a essa parte do livro devem ser dirigidas, na verdade, à psicologia evolucionista, pois como o autor apontou no início do livro, essas idéias pertencem a outras fontes, e essas são, na minha opinião, as melhores possíveis. Claro que sempre se pode criticá-lo por aceitá-las.
Por exemplo: duas críticas que se poderia fazer é a constante antropomorfização da natureza e o caráter teleológico dos argumentos. Ao longo de todo o texto os genes têm problemas e objetivos e os fenótipos costumam ter um propósito específico. A linguagem antropomórfica é comum entre os evolucionistas, desde, pelo menos, os trabalhos de Richard Dawkins. A crítica a essa característica me parece preciosismo lingüístico desnecessário. Qualquer um que lê que “um gene é egoísta” sabe que se trata de uma figura de lingüagem. Se você a extrapola em seus usos, as conseqüências ficam por sua conta. Em nenhum momento do livro o autor parece fazê-lo. Quanto ao caráter teleológico dos argumentos, trata-se, parece-me, de um erro de interpretação. Um dos grandes avanços da teoria de Darwin-Wallace foi afastar o pensamento teleológico da biologia. A natureza não tem um propósito, não caminha para um determinado objetivo. A seleção natural é, no entanto, um mecanismo inteligente, ou seja, suas decisões são baseadas em regras racionais, não aleatórias. Tais regras são naturais, não têm um desígnio específico. Quando escrevendo sobre evolução e seleção natural, não é necessário que isso seja a todo tempo lembrado no texto, sob pena de se tornar algo extremamente maçante e repetitivo, e Pinker jamais incorreria nesse erro.
Existe, porém, uma crítica a ser feita que considero pertinente. A “mente” que Steven Pinker se propõe a explicar não é a mente em geral ou em abstrato, mas a mente humana em particular. Muitos cientistas cognitivos estão mais interessados naquela do que nesta, ou seja, estão interessandos em entender como pensamento, raciocício, memória, aprendizagem e percepção funcionam independentemente do meio em que estejam implementadas. Não por acaso existe um acalorado debate filosófico sobre se a mente pode ser implementada independentemente do meio, ou se, ao contrário, o meio de implementação influenciaria no que chamamos de mente.
A pertinência dessa crítica decorre de um fato aparentemente prosaico: o título do livro é extremamente infeliz. Numa obra de ficção, o título é um elemento arbitrário, fruto da imaginação do autor, um componente estético do livro, sem por isso deixar de ser fundamental, pois o fundamento da ficção – debates à parte – é a estética. Numa obra científica, no entanto, o título é uma promessa, um termo de compromisso. Se o livro se chamasse Como a Mente Humana Funciona, não deixaria de ser bastante pretensioso, mas ao menos essa crítica perderia sentido. Um título mais adequado ainda, se me permitem a ousadia, seria o desta resenha, pois Como a Mente Funciona é exatamente isso: uma visão geral da psicologia evolucionista sobre a mente humana, como o próprio autor deixa claro, já no final do volume: “Esta é minha derradeira oportunidade de tentar atingir o objetivo deste livro: fazer você sair de sua mente por um momento e ver seus pensamentos e sentimentos como magníficas invenções do mundo natural em vez de o único modo como as coisas poderiam ser” (p. 589).
A derradeira oportunidade a que ele se refere no parágrafo transcrito é a terceira nota de humildade que mencionei no início desta resenha. O livro termina listando alguns problemas até agora insolúveis para os cientistas da cognição, e que, aparentemente, devem permanecer assim: “a sensação”, “o eu”, “a referência”, “o significado” - aspectos de um mistério a que chamamos “consciência”. Como a Mente Funciona, humildemente, exime-se de tentar explicar a consciência; é fato. Mas ao menos ensaia uma explicação para a falta de explicação: a incapacidade de entendermos a consciência pode ser resultado de não haver necessidade (no sentido da seleção natural) que isso seja feito.
Essa pode não ser uma maneira muito apropriada de se concluir uma obra que se propôs a extraordinária tarefa de mostrar como a mente funciona, mas talvez Santo Agostinho estivesse certo: “Aquele que deseja construir uma torre que toque as nuvens não deve se esquecer de fundá-la sobre os pilares da humildade”.
Pode ser que seja assim que as coisas funcionem.